Embora temas como corrupção ainda apareçam no radar, especialistas apontam que voto tende a ser guiado por fatores do cotidiano,
A pouco mais de seis meses das eleições presidenciais, o debate público começa a se organizar em torno de uma pergunta central: o que, de fato, vai pesar na decisão do eleitor brasileiro?
Embora temas como corrupção ainda apareçam no radar, especialistas ouvidos pela reportagem apontam que o voto tende a ser guiado principalmente por fatores concretos do cotidiano, com destaque para economia, segurança pública e acesso a serviços essenciais.
Na segurança pública, por exemplo, a sensação no Brasil varia de acordo com a região e nem sempre reflete a realidade dos índices criminais. A avaliação é do bacharel em Direito e especialista em segurança pública pela Universidade de Brasília (UnB) Leder Pinheiro, que aponta diferenças entre a percepção da população e a efetividade das políticas adotadas pelos estados.
Segundo ele, há um contraste claro entre Goiás e outras unidades da federação. “Hoje temos um cenário em segurança pública em Goiás em que a pessoa vê que o estado está mais seguro, as pessoas têm mais tranqüilidade em transitar nas ruas”, afirma Pinheiro, que também é especialista em Altos Estudos em Segurança Pública pela Universidade Estadual de Goiás (UEG).
Em contrapartida, relata que a percepção fora do estado é mais negativa. “De modo geral, fora de Goiás, a sociedade entende que não está segura, principalmente pela sensação de impunidade”. Para Leder, essa sensação está diretamente ligada à descrença no sistema penal.
“Hoje a sociedade tem a certeza de quando uma pessoa vai presa, ela não vai ficar presa, ela volta para o crime de novo”, diz. Apesar do avanço de facções criminosas no país, o especialista ressalta que a população não percebe o crime organizado de forma direta.
O impacto maior vem dos delitos do dia a dia. “O cidadão enxerga o crime como aquilo que afeta ele diretamente: roubo, furto de celular, roubo de veículos. Ele não faz essa conexão com organizações criminosas por trás disso”, explica.
Essa visão, segundo ele, limita o entendimento sobre a complexidade da segurança pública e reforça a cobrança por soluções imediatas. Leder contesta a idéia de que mais policiais nas ruas, por si só, garantem mais segurança.
“A sociedade acha que segurança é quantidade de polícia, viatura, giroflex. Mas, na prática, o que faz diferença é a integração entre as forças e o investimento em inteligência”, afirma. Ele cita Goiás como exemplo.
“Hoje temos o menor efetivo da história do estado, mas somos referência em segurança pública por conta da integração e do controle maior do sistema carcerário”, pontua. Segundo o especialista, ações estratégicas e análise de dados são mais eficazes do que medidas visíveis, mas superficiais.
